Doom é importante, mas a importância histórica do jogo não explica tudo. O que interessa, aqui, é essa obsessão coletiva de fazer Doom rodar em absolutamente qualquer coisa que tenha uma tela e um processador. Antes de chegar às bactérias, aos micro-ondas e aos eletrodomésticos, é preciso lembrar de onde esse monstro veio.
Um ano antes de Doom, em 1992, a id Software já tinha mudado muita coisa com Wolfenstein 3D, que apresentou a perspectiva em primeira pessoa. Mas Doom, lançado em 1993, foi a explosão definitiva. Trouxe variação de altura, luzes dinâmicas e uma velocidade alucinante que definiu as regras dos FPS que se joga até hoje.
A febre de levar o jogo para lugares estranhos começou de maneira mais convencional. O primeiro porte oficial fora do PC foi feito pelo próprio John Carmack para o Atari Jaguar, em 1994. Mas o divisor de águas veio em 1997, quando a id Software liberou o código-fonte. O primeiro grande movimento foi o Linux Doom, feito pelo programador David Taylor. Ele limpou o código, tirou as dependências do DOS e criou uma versão muito fácil de transportar para outros sistemas. Foi aí que a coisa ficou séria.
O primeiro aparelho realmente diferente, inusitado, que recebeu um porte de Doom foi o Osborne Vixen, um computador portátil dos anos 80 que já era considerado ultrapassado na época. Mas o marco da febre de rodar o jogo em coisas que não eram exatamente computadores veio com os PDAs, como o PalmPilot, e logo depois com calculadoras gráficas, como a TI-83.
Quem começou muito disso foi uma comunidade de programadores entusiastas que queria testar os limites do hardware. Virou febre por um motivo simples: o código de Doom é uma obra-prima de otimização. Ele não precisa de placa de vídeo; faz tudo no processador principal. Então, para um programador, conseguir rodar Doom em um aparelho que não deveria rodar nada é um troféu de engenharia. É a prova máxima de que se domina aquele hardware.
A partir daí, virou regra informal: se tem um chip, tem que rodar Doom. E as respostas foram as mais bizarras possíveis. Já fizeram o jogo rodar no visor de uma impressora, na telinha de um teste de gravidez digital e até no painel de uma geladeira inteligente. Teve quem conseguisse rodar o jogo em um caixa eletrônico, usando os botões do banco para atirar. E houve também quem instalasse o motor do jogo em um bloco de Lego com um monitor minúsculo.
O nível de loucura chegou ao ápice recentemente com a biotecnologia. Pesquisadores conseguiram usar bactérias de laboratório para exibir imagens do jogo. Usaram bioengenharia para que as células se iluminassem como pixels. Levava horas para cada frame atualizar, mas, tecnicamente, era Doom exibido por seres vivos. Teve também o clássico caso do micro-ondas e até a façanha de rodar Doom dentro do próprio Doom, por meio de um computador virtual.
O legado de Doom sobrevive justamente por ser essa plataforma aberta. Ele se tornou talvez o jogo mais democrático do mundo porque não exige tecnologia de ponta. Só precisa de um chip onde possa morar. Essa brincadeira é uma celebração da engenhosidade humana e da paixão de uma comunidade que se recusa a deixar um clássico morrer.
Trinta anos depois, não importa o quanto a tecnologia mude. Pode ter certeza: em algum lugar do mundo, alguém está tentando fazer uma arena aparecer em uma tela inusitada agora mesmo. É a prova de que, quando um software é feito com excelência técnica e alma, ele se torna imortal.


